Arquivo da tag: mercado editorial

Dulcineia Catadora Baixo Centro

Dulcinéia Catadora é um coletivo que aparece pelo mundo afora enchendo a rua de poesia e belas cores. Trata-se de uma editora cartonera, com vários livros já publicados em edição caseira, com capas personalizadas feitas em papelão e pintadas a mão por quem teve a coragem de interromper a caminhada e parou para participar de uma das intervenções e/ou pelos catadores da Cooperglicério, que também ajudam na montagem final dos livros. Nesta brincadeira, a cartonera já publicou autores como Joca Reiners Terron, Xico Sá, Douglas Diegues, Marcelo Ariel, Glauco Mattoso, Laerte, Paulo Scott, Manoel de Barros, a turma do sarau da Cooperifa e muito mais. Os livros são vendidos a R$ 6,00 e os lucros são divididos entre os catadores.

Pois ontem, dia 31 de março, eu tive uma sorte dessas. Acompanhei a Dulcinéia Catadora a uma intervenção na Praça Marechal Deodoro, bem ali no pé da Avenida Angélica, embaixo do Minhocão. Tratava-se de mais uma das ações do Festival Baixo Centro, que tem dado significado novo a lugares que quem vive em São Paulo costuma deixar desperdiçado. Na invervenção, além de pintar a minha própria capa de livro, fui convidado a falar poemas no megafone, tarefa que dividi com o poeta Carlos P. Rosa.

Meu abraço agradecido para a Ana Cristina Dangelo e Lúcia Rosa.

Saiba mais notícias da Dulcineia Catadora:

www.noticiasdacatadora.blogspot.com.br

www.dulcineiacatadora.com.br

 

Os poetas e o mercado editorial

Pode-se dizer que, no Brasil, o mercado editorial está passando por um momento inteiramente novo e otimista. Nos meus mais de 15 anos em que fui de leitor a livreiro, editor, tradutor, prestador de serviços editoriais, atravessando booms e depressões do mercado, é a primeira vez que vejo tamanho interesse no público brasileiro por parte de grandes investidores. Eventos literários em cidades dos quatro cantos do país (a Flip é apenas o mais prestigioso), investimentos de grandes empresas (como a Portugal Telecom), inúmeras editoras de todos os tamanhos aparecendo aqui ali. A via é de mão dupla: em termos de expansionismo, a coisa também parece promissora. O Brasil tem sido o homenageado em diversas feiras de livro pelo mundo afora, o que prenuncia a chegada a outros mercados.  Isso, sem falar no novo desafio: o e-book, que ganha cada vez mais espaço no país. Eu, que sou leigo em assuntos financeiros, lanço o palpite de que talvez seja um dos setores em maior expansão, hoje, no Brasil, a despeito de todas as crises e racionamentos de verba de que se possa reclamar.

Alguns fatos de 2011 ilustram bem o que estou dizendo. A venda de 45% das ações da Companhia das Letras para a Penguin (uma das maiores empresas editoriais do mundo) foi um dos fatos mais comentados do ano. Mas não foi a única, nem a primeira aparição de investidores estrangeiros no país. Aliás, isso está se tornando cada vez mais comum. Oxford, SM, Santillana, Pearson, Alfaguara são algumas das que já demonstram crescimento no setor.

No mercado de livros eletrônicos, há também um grande crescimento. Segundo o Publishnews, em 2011 a Companhia das Letras vendeu 1.200% mais e-books que em 2010, ano em que começou as atividades nesta área. Há pelo menos três empresas multinacionais em busca de suas brechas para inserir seus e-books no Brasil: a Amazon (dona dos Kindle), a Apple (com o controle sobre os iPads e seus aplicativos) e a Google, que parece estar apostando alto nesse nicho e tem mandado representantes para se unir com editores e livreiros em busca de parcerias.

O comentário mais recorrente é o de que somos 200 milhões de potenciais leitores em todo o país. É claro que ainda não é o público comprador, quem mais “consome” livros. Mas o Ministério da Educação é um dos maiores compradores de livros do planeta. Pelo Brasil afora, pululam as licitações públicas de compra de livros. Todos estão de olho nesses compradores.

 

Onde entram os poetas nisso tudo

Com tudo isso, quero dizer que, ao contrário do que se diz, há muito dinheiro circulando ao redor dos livros, mas a maior parte da literatura autoral publicada no Brasil hoje se vale dos seguintes dispositivos: 1) pequenos editores que os publicam muitas vezes dividindo com o autor o custo da edição, 2) conseguem verba do governo através das leis de incentivo à cultura, situação em que o autor acaba optando entre publicar por  conta própria, administrando o dinheiro recebido, ou fazer uma parceria com algum pequeno editor e 3) o autor se anima a tirar do próprio bolso para a publicação, sem auxílio de nenhum editor.

Isso gera uma confusão: embora o mercado esteja em expansão, o seu conteúdo deixa a desejar. O que os grandes editores querem é autores que vendam 20 mil exemplares no dia do lançamento. Isso faz com que eles empurrem um mar de porcarias na cabeça do público. Parece que um dos pré-requisitos para ser um best-seller é ser literatura descartável. Somado ao fato de que, salvo poucas excessões, já não se faz editores como antigamente, essa situação faz com que ao longo do ano se imprimam rios e rios de livros cujo destino final será ir parar nalgum aterro sanitário. O fino da literatura, aquilo que é produzido pelos autores mais criativos, muitas vezes passa desapercebido pelos editores, atentos apenas aos cifrões imediatos e à sobrevivência a curto prazo.

Esse dito “mercado”, ainda não conseguiu desenvolver um sistema que mantenha os seus escritores em atividade. Conheço inclusive alguns editores que estão francamente dispostos a não manter relações com escritores. O discurso hoje ultrapassado de que “poesia não vende” é o primeiro assombro do editor. O segundo é a perseguição dos autores que ficam ali cobrando a venda de seus livros. É como disse o poeta Chacal: “não é que poesia não venda, é que os editores não sabem  vendê-la”. Eu diria ainda mais: muitos editores não sabem sequer como lê-la. Daí a dificuldade em se decidir quanto à publicação de bons livros.

O mercado editorial brasileiro precisa, cada vez mais, de pessoas capacitadas para fazer com que o conteúdo ultrapasse os limites da chamada “literatura comercial”, que eu chamo de literatura de curto prazo. Assim como estamos num momento otimista do mercado editorial, a literatura brasileira goza de boa saúde, embora seja escrita (e muitas vezes financiada) por autores que estão constantemente de bolso vazio e precisam dar duro para descobrir como farão para pagar a próxima conta de luz.  Editores e investidores são espertos quanto a isso. E os poetas? Continuarão com o discurso de que mercado é inimigo da poesia e esperando que algum milagre aconteça? Se a coisa vai por aí, tenho mesmo certeza de que o mercado crescerá sem poesia.

A poesia de Juan Gelman no Brasil

Dibaxu
Dibaxu/Debajo/Debaixo
Universidade Federal do Ceará, 2009

Traduzido por Andityas Soares de Moura e publicado no final de 2009, Dibaxu traz uma coleção de 29 poemas amorosos. Uma curiosidade: Juan não os escreveu em espanhol, sua língua mãe, mas na língua dos judeus da península ibérica, o sefardita. “Sou de origem judia, mas não sefardita, e suponho que isso teve a ver com o assunto”, comenta o poeta. Trata-se de um idioma antigo, que está nas próprias origens da língua espanhola. É, entre outras coisas, o idioma do Cantar de mio Cid, poema fundador do povo castelhano. Apesar de antigo, o sefardita não é uma língua morta. “O acesso a poemas como os de Clarisse Nikoïdski, novelista em francês e poeta em sefardita, desvelaram essa necessidade que em mim dormia”, revela o poeta, outra vez no “Escólio”, incluído na publicação. E arremata: “a sintaxe sefardita me devolveu um candor perdido e seus diminutivos, uma ternura de outros tempos que está viva e, por isso, cheia de consolo”. O livro brasileiro vem em versão trilíngüe (sefardita, português e espanhol), seguindo o caminho proposto pelo próprio poeta em sua publicação original (sefardita-espanhol).

O livro faz parte da coleção Nossa Cultura e nasce graças ao apoio do poeta Floriano Martins.

Com/posições
Com/posições
Crisálida, 2007

Com/posições foi traduzido por Andityas Soares de Moura. Um livro híbrido, onde Juan Gelman recria a poesia de poetas árabes e judeus antigos fazendo deles ao mesmo tempo parceiros e heterônimos. Assim, os autores “traduzidos” vão desde o rei Davi até a poetas árabe-espanhóis da idade média, o período conhecido como Al-Andaluz. Mas a escolha dos poemas ali presentes não é sem razão: ele se vale das vozes antigas para falar de sua própria condição de exilado.

O livro, além de trazer na íntegra os poemas “Com/posições” (Com/posiciones, no original), traz também um precioso prefácio do tradutor e uma entrevista com Andityas Soares de Moura e Leonardo Gonçalves, originalmente publicada em 2005 no Suplemento Literário de Minas Gerais por ocasião do lançamento do livro Isso.

Isso.
UnB, 2004
O livro Isso não é uma antologia. Gelman o havia publicado pela primeira vez no livro Interrupciones II, reunião, além deste, dos livros Bajo la lluvia ajena (notas al pie de una derrota), Hacia el sur e Com/posiciones. Foi traduzido por mim e por Andityas Soares de Moura, a convite de Henryk Siewierski, da editora UnB e publicado em 2004. Um trabalho apaixonado que teve a grande honra da leitura do próprio autor no ato da tradução. Como a visão dos tradutores sobre a poesia é bastante díspare, acabamos por travar um interessante embate, o que fez com que o trabalho tomasse um caráter todo especial de comunhão democrática, vindo à tona, tanto na tradução quanto na introdução, um pouco da poética de cada um dos três: o mestre, é claro, Juan, e seus alunos: Leo Gonçalves e Andityas.
O livro Isso integra a coleção Poetas do Mundo que já trouxe para o nosso idioma poetas como Tahar ben Jelloun, Czesław Miłosz, Miodrag Pávlovitch, Francis Ponge, Lucian Blaga, e. e. cummings, Edwin Morgan, Yosano Akiko e outros.

Amor que serena, termina?.
record, 2001
Amor que serena, termina? é um belo panorama da poesia de Juan Gelman. Traduzido por Eric Nepomuceno e revisada por Chico Buarque de Holanda. Conhecido por traduzir muito do que há de melhor em literatura latino-americana no Brasil, neste livro, Nepomuceno se entrega a um desafio inédito para ele: traduzir poesia. Conta-se que a record relutou por algum tempo até se convencer a publicar este livro, afinal livro de poesia não vende no país da batucada.

Puentes/Pontes.
Fondo de Cultura Económica, 2004

Este é um interessante projeto da Fondo de Cultura Económica, organizado por Heloísa Buarque de Holanda, Jorge Monteleone y Teresa Arijón. O propósito: pensar a poesia como ponte que une mundos. Trata-se de uma alentada antologia (537 páginas) que inclui poetas brasileiros e argentinos. Na lista: Paulo Leminski, Lamborghini, Affonso Ávila, Bayley e, é claro, Juan Gelman. A tradução deste foi feita pelo poeta e tradutor sérgio alcides e nos dá um ótimo panorama das faces do poliedro que é a poesia de Juan.


Poesia argentina – 1940/1960.
Iluminuras

Esta antologia foi organizada pela acadêmica Bella Jozef, que além deste livro, é autora também de alguns estudos sobre a poesia latino-americana contemporânea. É um panorama da poesia argentina de uma época criativa e febril na poesia daquele país. Mostra o aparecimento do surrealismo, da poesia beatnik, por exemplo. Além do juan (apenas 2 poemas, maravilhosos e muito bem traduzidos, por sinal), tem lá uma boa seleção de outros poetas.

Lançamento em SP: Mastodontes na sala de espera

Para quem estiver em SP na próxima quarta-feira, dia 19 de outubro das 19h30 às 22h30, a boa é o lançamento do livro Mastodontes na sala de espera de Bruno Brum, que acontece no Centro Cultura O B_arco (Rua dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426 – Pinheiros).

Saiba mais sobre o livro  e sobre autor no www.saborgraxa.wordpress.com

***

Título: MASTODONTES NA SALA DE ESPERA
Autor: Bruno Brum
Tema: poesia brasileira contemporânea
Formato: 14 x 21 cm | 96 p. | BROCHURA
ISBN 978-85-87961-69-3 | ano: 2011 Preço: R$ 24, [já disponível]
Livro vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2010, na categoria Poesia

Comentário de Luiz Roberto Guedes:

Que poesia é possível em nosso tempo pós-utópico, virtualizado, em que a própria realidade é “desrealizada”, como disse Paul Virilio? Este desafiador mastodonte fabricado por Bruno Brum reafirma a sobrevivência dessa arte que muitos creem extinta, a poesia. Com sua dicção personalíssima – em que se poderia distinguir, talvez, uma afinidade com o demiurgo anarcopoético Sebastião Nunes –, Brum destila poemas com um humor seco, ácido, esboçando mapas provisórios de um mundo alucinado, onde “um homem lê um livro em chamas”. Consciente de que o poeta é um criador de “empresas imaginárias”, se lança com arrojo à humana empresa da poesia. Bravo Brum.

Título: MASTODONTES NA SALA DE ESPERA

Autor: Bruno Brum

Tema: poesia brasileira contemporânea

Formato: 14 x 21 cm | 96 p. | BROCHURA

ISBN 978-85-87961-69-3 | ano: 2011 Preço: R$ 24, [já disponível]

Livro vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2010, na categoria Poesia

Biblioteca mattosiana

Glauco Mattoso completa hoje, dia 29 de junho, 60 anos. Motivo para comemorá-lo. Então, para quem estiver em SP, hoje tem o lançamento da Biblioteca mattosiana, pelo selo Demônio Negro, reunião de tudo que fez até agora. Na Biblioteca só não haverá o livro Tripé do tripúdio e outros contos hediondos, que será também lançado pelo selo Tordesilhas. Haverá também um bate-papo com o autor e os escritores Lourenço Mutarelli, Mamede Mustafa Jarouche e Antonio Vicente Seraphim Pietroforte.

O lançamento acontece no Centro Cultural B_arco (Rua Virgílio de Carvalho Pinto, 426 – Pinheiros) a partir das 19h30.

***
Para quem já quiser ir degustando as palavras do desbocado Glauco, um soneto sádico:

SONETO 17 SÁDICO

Legal é ver político morrendo
de câncer, quer na próstata ou no reto,
e, pra que meu prazer seja completo,
tenha um tumor na língua como adendo.

Se for ministro, então, não me arrependo
de ser-lhe muito mais que um desafeto,
rogar-lhe morte igual à que um inseto
na mão da molecada vai sofrendo.

Mas o melhor de tudo é o presidente
ser desmoralizado na risada
por quem faz poesia como a gente.

Ele nos fode a cada canetada,
mas eu, usando só o poder da mente,
espeto-lhe o loló com minha espada.

(Glauco Mattoso. Centopéia: sonetos nojentos e quejandos. SP: Ciência do Acidente, 1999)

e-books pra terminar 2010

O ano de 2010 vai entrar pra história como o ano do iPad e dos kindles. O livro-e e seus navegadores foi assunto em várias rodas, bienais, encontros literários, discussões aguerridas e polêmicas quanto à possivel e amedrontadora entrada dos livros eletrônicos que supostamente substituiriam o livro de papel.

Em 2010, pela primeira vez, viu-se que a venda de livros não folheáveis era de interesse do mercado e algumas grandes lojas começaram a exigir dos editores um exemplar eletrônico vendável para cada livro de papel. Para os poetas e leitores de poesia, interessados em literatura em geral e amantes dos objetos feitos com capricho, me parece que a novidade já está sendo benéfica e tende a ser mais ainda.

Entrando nessa onda e pra fechar o ano e preparar os ânimos para o que vem por aí, tem mais dois e-books de amigos que me deixaram cheio de entusiasmo!

Um é o excelente livro Leve, que o Marcelo Sahea disponibilizou lá no Poesilha e fica até quando. É barato: custa apenas um post no twitter ou no facebook. Não subsitui o exemplar em papel, claro (bela e caprichada edição em formato quadrado que eu já tenho!). Segundo o Marcelo, custa menos que uma sidra. Portanto, a dica é: leia o pdf e adquira seu exemplar de papel e deixa de conversa fiada sobre substituição ou não do produto manuseável.

O outro é esse que você vê acima: Do amor como ilícito, do meu amigo, sósia e irmão mais velho, o poeta belorizontino Anízio Vianna. Para quem não o conhece, Anizio é autor de Dublê de anjo e Itinerário do amor urbano, o primeiro deles vencedor do prêmio Cidade de Belo Horizonte em 1996. Artista do verbo, já defendeu mestrado sobre a performance dos rappers, traduziu poesia (colaborou no estilingue 2) e é o inventor de um negócio chamado poema-notícia. Anízio é o cara.

Tá bom pra começar, não tá? Ou pra terminar. Cliquem aí e divirtam-se.

Mercado editorial, mundo de incertezas

Recém chegado a São Paulo, tenho olhado com avidez para o mercado editorial. Talvez tenha sido essa a maior surpresa minha ao chegar a esta cidade. A constatação de que de fato “existe” um mercado editorial, capaz de girar a roda, gerar empregos, atrair recursos. As estatísticas variam, mas é verdade que a cidade de São Paulo é responsável pela produção e o consumo da imensa maior fatia do que se produz editorialmente no Brasil. Enquanto uma cidade como Belo Horizonte ainda engatinha, com suas quatro ou cinco editoras pequenas, boa parte delas só publicando com recursos do Estado (via leis de incentivo), existe aqui uma intensa atividade empresarial com visão de futuro e desejos de inserção num mercado que, bem ou mal, acaba produzindo rios de dinheiro. Trabalhando primeiro numa pequena editora e, atualmente, numa distribuidora de livros e muitas vezes fazendo trabalhos free-lance, convivendo com designers gráficos, editores, escritores, não desistindo em nenhum instante dos meus projetos pessoais, ainda que sem editor (tenho na minha gaveta traduções, poesia, ensaios, projetos mil), tenho tido uma visão privilegiada do assunto. Todos os dias no metrô, vejo diversos leitores ávidos. Leitores que lêem em pé, sem segurar em nada, enquanto as pessoas se acotovelam. De uma ponta a outra da cadeia produtiva, vejo muita atividade. Livrarias cheias, animadas, algumas produtoras de elegantes revistas informativas.
Mas antes que o leitor pense que esta é uma nota otimista, parto logo para as nuances. Continue lendo Mercado editorial, mundo de incertezas

Dibaxu/Debaixo, Juan Gelman

Acaba de sair pela editora da Universidade Federal do Ceará a primeira edição brasileira do livro Dibaxu/Debaixo de Juan Gelman, com tradução do meu amigo Andityas Soares de Moura. O livro faz parte da coleção Nossa Cultura e nasce graças ao apoio do poeta Floriano Martins.

Dibaxu é um trabalho singular. Escrito entre 1983 e 1985, traz uma coleção de 29 poemas amorosos. Uma curiosidade: Juan não os escreveu em espanhol, sua língua natural, mas na língua dos judeus da península ibérica, o sefardita. “Sou de origem judia, mas não sefardita, e suponho que isso teve a ver com o assunto”, comenta o poeta. Trata-se de um idioma antigo, que está nas próprias origens da língua espanhola. É, entre outras coisas, o idioma do Cantar de mio Cid, poema fundador do povo castelhano. Apesar de antigo, o sefardita não é uma língua morta. “O acesso a poemas como os de Clarisse Nikoïdski, novelista em francês e poeta em sefardita, desvelaram essa necessidade que em mim dormia”, revela o poeta, outra vez no “Escólio”, incluído na publicação. E arremata: “a sintaxe sefardita me devolveu um candor perdido e seus diminutivos, uma ternura de outros tempos que está viva e, por isso, cheia de consolo”. O livro brasileiro vem em versão trilíngüe (sefardita, português e espanhol), seguindo o caminho proposto pelo próprio poeta em sua publicação original (sefardita-espanhol).

Há poucos livros de Juan Gelman publicados no Brasil. O primeiro foi o trabalho de Eric Nepomuceno, a belíssima antologia Amor que serena, termina?, ao que se seguiu Isso, publicada pela UnB e traduzida por mim e pelo Andityas (ver capa ao lado). Pela editora Crisálida, o livro Com/posições, também tradução de Andityas. Como o tradutor bem lembra, Juan Gelman possui uma das características mais interessantes (a meu ver) para um poeta no mundo contemporâneo: a diversidade. Dono de variadas técnicas na criação poética, foi uma das mais poderosas vozes nos anos 70 e 80, período de resistência contra a ditadura militar argentina. Despaegado dos rótulos, o premiadíssimo Juan Gelman tem mostrado sempre novas e surpreendentes faces ao longo de seus mais de 30 livros. Segundo consta, seus poemas eram memorizados e recitados às escondidas para os presos políticos, circulavam como alimento para a revolta entre os ativistas de esquerda e davam uma nota de esperança aos que continuavam sonhando uma Argentina livre. O escritor Julio Cortázar achava que “Talvez o mais admirável [na poesia de Gelman] seja sua quase impensável ternura ali onde mais se justificaria o paroxismo do rechaço e da denúncia, sua invocação de tantas sombras por meio de uma voz que sossega e arrulha, uma permanente carícia de palavras sobre tumbas ignotas”. Seu poema “Gotán” (tango na gíria lunfardo), escrito nos anos 60, está entre os mais conhecidos poemas argentinos.

A escolha de Andityas Soares de Moura em traduzir justamente os poemas sefarditas se faz pela mais pura confluência. Admirável conhecedor da língua portuguesa e amante da diversidade, o poeta-tradutor publicou, em 2003, o livro OS enCANTOS, um livro único no Brasil, com versos escritos em português, galego, provençal, catalão, francês, italiano, latim. Uma desbabel neolatina, na qual se entrevê, como em Juan Gelman, uma busca apaixonada pelas raízes da língua. Como se buscar as raízes da língua fosse buscar as próprias raízes da poesia. Para completar a edição, o leitor de Dibaxu/Debaixo ganha um último presente: uma série de poemas de autoria do próprio Andityas nos quais ele assume ter-se deixado influenciar pela poética social de Juan Gelman.

Dibaxu/Debaixo foi uma das melhores coisas que recebi neste final de 2009. Tomara que chegue às livrarias do sudeste. Para quem quiser uma palhinha, aí vai:

XX.

não tens porta/chave/
não tens fechadura/
voas de dia/
voas de noite/

o amado cria o que se amará/
como tu/chave/
tremendo
na porta do tempo/

******

no tenis puarta/yave/
no tenis sirradura/
volas di nochi/
volas didia/

lu amadu cría lu qui si amará/
comu vos/yave/
timblandu
nila puarta dil tiempu

******

no tienes puerta/llave/
no tienes cerradura/
vuelas de noche/
vuelas de día/

lo amado crea lo que se amará/
como tú/llave/
temblando
en la puerta del tiempo/

Novo site da Livraria e Editora Crisálida

livraria e editora crisálida: novo site

Uma editora não é apenas uma empresa que publica livros. Se o propósito é publicar livros voltados para o humano, uma editora precisa ser mais que uma publicadora: é necessário ser um local de debates, de conversas, interlocuções e formação. Local de fervuras.

Quem me conhece sabe o quanto devo à Crisálida, enquanto formadora, do bom que tenho em mim hoje em dia. Oséias Silas Ferraz foi quem primeiro me abriu as portas para o mundo editorial, publicando pela primeira vez uma tradução minha (a saber: O doente imaginário de Molière, em 2002) e que depois me convidou para publicar Canções da Inocência e da Experiência, traduções que me ensinaram mais do que todas as disciplinas de literatura na UFMG.

É com essa alegria e essa gratidão que dou aqui a notícia do seu novo site. É um espaço dinâmico, onde o leitor poderá obter obras tanto do acervo da livraria (que trabalha com novos e usados) quanto da editora. É claro que visitar o site nem se compara com o prazer de pisar lá na sobreloja do Edifício Maletta, bater um papo com os livreiros, encontrar as obras que você tanto queria ver guardadinhas lá na estante sem nenhuma virtualidade. Mas não é todo mundo que pode. Então o negócio é aproveitar e clicar aí:

www.crisalida.com.br