Arquivo da categoria: Poesia & arredores

agradecer e abraçar

(vevé calazans – gerônimo)

abracei o mar na lua cheia, abracei
abracei o mar
abracei o mar na lua cheia, abracei
abracei o mar
escolhi melhor os pensamentos, pensei
abracei o mar
é festa no céu, é lua cheia, sonhei
abracei o mar
e na hora marcada Dona Alvorada chegou para se banhar
e nada pediu, cantou pro mar
e nada pediu
conversou com o mar
e nada pediu
e o dia sorriu…
uma dúzia de rosas, cheiro de alfzema, presentes eu fui levar
e nada pedi
entreguei ao mar
e nada pedi
me molhei no mar
e nada pedi
só agradeci…

marcelino freire – para iemanjá

oferenda não é essa perna de sofá. essa marca de pneu. esse óleo, esse breu. peixes entulhados, assassinados. minha rainha. não são oferenda essas latas e caixas. esses restos de navio. baleias encalhadas. pingüins tupiniquins, mortos e afins. minha rainha. não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de coca. essas flores de bosta. não mijei na tua praia. juro que não fui eu. minha rainha. oferenda não são os crioulos da guiné. os negros de cuba. na luta, cruzando a nado. caçados e fisgados. náufragos. minha rainha. não são para o teu altar essas lanchas e iates. esses transatlânticos. submarinos de guerra. ilhas de ozônio. minha rainha. oferenda não é essa maré de merda. esse tempo doente. deriva e degelo. neste dia dois de fevereiro. peço perdão. minha rainha. se a minha esperança é um grão de sal. espuma de sabão. nenhuma terra à vista. neste oceano de medo. nada. minha rainha.

texto do marcelino freire recitado por fabiana cozza no show mo gbe orisa.

fabiana cozza coruscante

fabiana cozza, em

a sala juvenal dias estava transbordando nesta última quinta-feira. sucesso para além das expectativas, o espetáculo mo gbe orisa, de fabiana cozza foi uma verdadeira festa sonora. quebrando os protocolos, fabiana aproveitou para atender praticamente todos os pedidos e ainda teve uma conversa carinhosa com o público que saiu de lá inebriado.

um espectador falou que ela parecia um orixá no palco. e de fato, ela irradiava simpatia, alegria, emoção. não é à toa que o show, concebido especialmente para essa noite do griot, tinha como nome a frase que em iorubá significa “trago em mim o orixá”. uma grande surpresa para boa parte do público, que mal conhecia o nome da cantora. foram mais de duas horas de música boa, poesia e bate-papo. cds esgotados, lágrimas de alegria e sorrisos estampados na cara. uma verdadeira celebração da vida.

cheia de molejo, ela interpretou canções como “estrela guia”, do sérgio pererê, “xangô te xinga”, de leandro medina e o clássico “canto de ossanha”, de vinícius de moraes e baden powell. “eu também adoro cantar músicas de dor profunda”, ela disse em certo momento. e alguém lá da platéia gritou “manda uma triste”. e gentilmente fabiana cedeu. cantou um clássico dor-de-cotovelo, desta vez cubano: “vete de mí”, de bola de nieve. e não chorou sozinha. outro momento inesquecível foi o “canto para iemanjá”, seguido de “agradecer e abraçar” que desemboca no texto “para iemanjá”, de marcelino freire. duas canção azuis.

difícil de falar desta noite de xangô sem superlativos.  em todo caso, já está agendado: em setembro, fabiana volta com seu show “quando o céu clarear”. se não me engano, no grande teatro. o melhor negócio é não perder! mas enquanto ela não volta, vale a pena fazer um passeio pelos seus espaços na rede.

www.fabianacozza.com.br
www.fabianacozza.blogspot.com
www.myspace.com/fabianacozza

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jerome rothenberg aqui & ali

(aproveitando uma dica do heriberto yepez)

há bem pouco tempo que venho me enveredando pelos estudos da etnopoesia. acho lamentável não encontrar muitas fontes sobre o assunto em língua portuguesa. fiquei bem feliz quando encontrei numa livraria um livro chamado “etnopoesia no milênio”, da editora azougue. da mesma forma, passeando pelo incrível site do ubu, encontrei um excelente manancial (coordenado pelo próprio jerome) sobre a ethnopoetics, oferecido para os leitores de língua inglesa. foi lá que achei o “sketch on ethnopoetics” de heriberto yepez para traduzir.

acredito muito numa poesia que chamarei “de pesquisa”, a qual encontro as primeiras prefigurações no brasileiro sousândrade, nas galáxias de haroldo de campos e em jerome rothenberg.

rothenberg é mais um que entra para a bloguesfera. ele lança seus delírios de lá da california no poems & poetics. no prospecto que ele inseriu na barra ao lado de seu espaço, um pouco daquilo que os blogueiros dizem ou diriam se tivessem lembrado de fazê-lo.

nesta era de internet e blogue, abre-se a possibilidade para uma livre circulação de obras (poemas e poéticas no nosso caso) para além de um nexo comercial ou acadêmico. eu passarei a postar algumas das minhas próprias obras, tanto novas quanto velhas, de difícil ou impossível acesso, e também, como der na telha, postar obras de outros meio à maneira de uma antologia ou revista aberta. eu tomo isto para estar na tradição dos poetas de publicação autônoma, retornando a Blake & Whitman & Dickinson, entre numerosos outros.

o poems & poetics está no:
www.poemsandpoetics.blogspot.com

além disso, você encontra mais sobre a ethnopoetics no:
www.ubu.com/ethno

titane na stereoteca

hoje, dia 2 de julho, às 20h30, na biblioteca pública luís de bessa – pça da liberdade/bh, tem show da titane. ela estará lançando o seu novo cd: “ana”. já me disseram que o disco está lindo, só com músicas da nova geração de belo horizonte. eles são não apenas os compositores: a produção do disco e os efeitos sonoros de renato villaça e os arranjos de rafael martini enriquecem o disco com uma sonoridade toda especial.

para saber mais, ouvir e baixar o disco e o encarte na íntegra:
www.titane.com.br
www.stereoteca.com.br
www.autofago.blogspot.com

a utopia brasileira e os movimentos negros

a utopia brasileira e os movimentos negros, de antônio risério

acabo de ler um dos melhores livros que tive em mãos nos últimos tempos: a utopia brasileira e os movimentos negros do poeta e antropólogo antônio risério. não fosse estar atarefadíssimo nos últimos dois meses, teria lido o livro numa talagada só. mesmo assim, muita gente deve ter me visto andando por aí feito um louco, caminhando pelas ruas com o livro na frente, às vezes apressado para chegar no próximo compromisso, mas lendo sofregamente – ansioso para saber o próximo passo, a próxima palavra, o próximo beliscão. confesso que quando vi pela primeira vez na livraria o título “a utopia brasileira e os movimentos negros”, tive um certo desânimo: mais um livro avaliativo sobre o movimento negro no brasil. além disso esse papo de “utopia brasileira”… sei não. olhei com certa desconfiança, mas fui especialmente atraído pelo nome do autor. e não me arrependi. risério é, para quem não o conhece, no mínimo um dos caras que, com seu livro “oriki, orixá”, mais me fez a cabeça nos últimos anos. você lê um pouco sobre ele na revista zunái. o impacto desse novo livro é tão forte pra mim, que ainda preciso digerir um pouco. em breve, quero colocar aqui a minha resenha. enquanto não faço isso, deixo vocês com o índice do livro. segundo o marcelo terça, era um dos poemas que eu devia ter lido no sarau do dia 13 de maio lá no balaio de gatos. recitado outro dia pelo amigo helder quiroga, a sugestão se mostrou interessante.

A UTOPIA BRASILEIRA E OS MOVIMENTOS NEGROS

por um olhar brasileiro
mestiçagem em questão
mulato, o visível e o invisível
em busca de ambos os dois
a morte dos deuses nos EUA
presença de exu
sob o signo do exorcismo
sincretismo e multiculturalismo
trilhos urbanos
palavras, palavras, palavras
imagens, tambores e melodias
a escola brasileira de futebol
movimentos negros ontem
movimentos negros hoje
a nova história oficial do brasil
toque final

Fahrenheit 451

Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos. Cada minoria, seja ela batista, unitarista; irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista; sionista, adventista-do-sétimo-dia; feminista, republicana; homossexual, do evangelho-quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio. (…) Beatty, o capitão dos bombeiros em meu romance Farenheit 451, explicou como os livros foram queimados primeiros pelas minorias, cada um rasgando uma página ou parágrafo desse livro e depois daquele, até que chegou o dia em que os livros estavam vazios e as mentes caladas e as bibliotecas para sempre fechadas.

miguel dos anjos na stereoteca

a próxima quarta-feira, dia 25 de junho, é noite de samba bom na stereoteca. quem toca é ninguém menos que miguel dos anjos, um dos maiores bambas, fina flor do samba que sacode essa cidade. ele vai lá pra lançar seu primeiro cd “esse samba é todo nosso”. para ouvir uma deliciosa palhinha, é só clicar aqui. duvido que alguém vai conseguir ficar sentado.

anote pra não esquecer:
miguel dos anjos lança o disco “esse samba é todo nosso”
dia: 25/06, quarta-feira às 20h30
local: teatro da biblioteca pública luís de bessa
(praça da liberdade – belo horizonte – mg)

saiba mais: www.stereoteca.com.br

Gérard de Nerval

Eu estava aqui lendo um texto do Claudio Willer na Revista Agulha n° 63 sobre um dos poetas de que mais gosto. Um cara estranho, escuro, gnóstico, desdichado, deserdado, simbolista avant la lettre, que foi considerado louco duas vezes enquanto ainda era lúcido e que suicidou aos 46 anos. O texto do Willer se chama “Gérard de Nerval aos 200 anos“. Eu estava aqui me deliciando com ensaio e me deu uma puta vontade de dar a minha versão brasileira para o poema El desdichado, livre e interessado em ouvir pitacos a fim de melhorá-la. É um poema bem hermético. Mas quem quiser esclarecer alguns pontos, palavras como Posilipo, Lusignam, Febo, Biron, e sol negro, sugiro que dê uma lida no artigo do Willer.

El Desdichado

Eu Sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado,
O Duque de Aquitânia em sua abolida Torre:
Morreu minha Estrela – e meu lude constelado
Traz o Sol negro, onde a Melancolia acorre.

Na noite Tumular, Tu que me hás consolado
Dá-me o Posílipo e o mar que na Itália corre,
A flor que tanto apraz meu peito desolado,
E a parreira de onde Pâmpano e Rosa escorrem.

Serei Amor ou Febo?… Lusignam ou Biron ?
Tenho a testa ainda rubra do beijo da Rainha;
Sonhei na Gruta onde minha Sereia brinca…

Duas vezes vencedor atravessei o Aqueronte
Modulando aos bocados na lira de Orpheu
Os suspiros da Santa e os ais que a Fada deu.

Je suis le Ténébreux, – le Veuf, – l’Inconsolé,/Le Prince d’Aquitaine à la Tour abolie :/Ma seule Étoile est morte, – et mon luth constellé/Porte le Soleil noir de la Mélancolie.//Dans la nuit du Tombeau, Toi qui m’as consolé,/Rends-moi le Pausilippe et la mer d’Italie,/La fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé,/Et la treille où le Pampre à la Rose s’allie.//Suis-je Amour ou Phoebus ?… Lusignam ou Biron ?/Mon front est rouge encor du baiser de la Reine ;/J’ai rêvé dans la Grotte où nage la Sirène…//Et j’ai deux fois vainqueur traversé l’Achéron :/Modulant tour à tour sur la lyre d’Orphée/Les soupirs de la Sainte et les cris de la Fée.