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release: lançamento do livro com/posições de juan gelman

Lançamento nacional do livro Com/posições de Juan Gelman, em tradução de Andityas Soares de Moura acontece no sábado, dia 29 de setembro a partir das 10h da manhã na Livraria Quixote, em Belo Horizonte.

Sábado, dia 29 de setembro, a partir das 10h da manhã, na livraria Quixote, acontece o lançamento do livro Com/posições, obra de um dos artistas mais participantes no cenário cultural e político da atualidade. Juan Gelman vem se destacando por sua dupla atuação como poeta e jornalista. Autor de mais de 3 dezenas de livros, sua obra vem pouco a pouco aparecendo também no Brasil graças ao esforço de alguns poetas tradutores. É o caso de Andityas Soares de Moura que, tendo traduzido o livro Isso (Editora UnB, 2004) para a coleção Poetas do Mundo, em parceria com Leonardo Gonçalves, lança agora a tradução de Com/posições, um de seus livros mais expressivos.

Com/posições é um livro híbrido, onde o autor recria diversos poetas árabes e judeus antigos fazendo deles ao mesmo tempo parceiros e heterônimos de Juan Gelman. Assim, os autores “traduzidos” vão desde o rei Davi até a poetas árabe-espanhóis da idade média, o período conhecido como Al-Andaluz. Mas a escolha dos poemas ali presentes não é sem razão: o argentino se vale das vozes antigas para falar de sua própria condição de exilado.

A primeira edição desta obra em língua castelhana se deu em 1986 e os poemas foram escritos entre 1984 e 1985, período em que ainda se comia os frutos da ditadura militar argentina (1976-1983), uma das mais sangrentas e cruéis da história. Gelman foi uma das vítimas mais célebres do regime militar. Em 1976, pouco depois do golpe, os militares invadiram a casa do poeta, seqüestraram o seu filho e sua nora, Marcelo e Claudia (que estava grávida) e os levaram a um campo de concentração no Uruguai onde foram mortos e desaparecidos. Gelman continuou vivo, pois já havia conseguido asilo político na Europa e passou a seguir numa busca revoltada e incansável por notícias do neto (mais tarde saberia que era neta) e os restos mortais do filho e da nora. Em 1989 o governo militar encontrou as ossadas de Marcelo e somente em 2000, apareceram notícias de sua neta e Claudia, por sua vez, a despeito da campanha internacional que se deu durante todo o período, segue desaparecida e a causa dada como perdida.

Com este episódio lamentável, Gelman manteve-se em constante revolta e não silenciando jamais as iniqüidades do governo militar. Entretanto, uma marca de sua poesia é uma imensa ternura e uma grande manifestação de amizade para com o seu povo. O escritor Júlio Cortázar, num artigo de 1981, comenta: “Talvez o mais admirável em sua poesia seja sua quase impensável ternura ali onde mais se justificaria o paroxismo do rechaço e da denúncia, sua invocação de tantas sombras por meio de uma voz que sossega e arrulha, uma permanente carícia de palavras sobre tumbas ignotas”.

Gelman vem sendo traduzido para vários idiomas e vem também acumulando diversos prêmios pelo mundo afora. Entre os prêmios principais destacam-se os seguintes: Nacional de Poesia 1993-1996 (Argentina, 1996), Literatura Latinoamericana y del Caribe Juan Rulfo (México, 2000), José Lezama Lima – Casa de las Américas (Cuba, 2003), LericiPEA (Itália, 2003), Pablo Neruda (Chile, 2005), Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana (Espanha, 2005). Sobre sua inventividade poética, comenta o poeta paulistano Haroldo de Campos: “Eu considero o Gelman, hoje, um dos maiores poetas da língua espanhola em geral e, também, no nível internacional. Por isso, temos de divulgar a sua poesia.”

O livro, além de trazer na íntegra os poemas “Com/posições” (Com/posiciones, no original), traz também um precioso prefácio do tradutor e uma entrevista com os tradutores brasileiros Andityas Soares de Moura e Leonardo Gonçalves, originalmente publicada em 2005 no Suplemento Literário de Minas Gerais.

Para maiores informações, consulte os sites:

www.crisalida.com.br
www.juangelman.com (este site em espanhol é mantido pelo próprio autor)

o limpador de chaminés

na neve um ponto negro vai
chorando ‘arre ‘arre em tom de ai!
onde seu pai & sua mãe hão de estar?
eles foram para a igreja rezar.

porque alegre as urzes me mostro,
e sorrio sob a neve que cai:
me vestiram as vestes da morte,
e me ensinaram o canto em tom de ai.

e porque alegre cantei & dancei
eles pensam que não me ferem:
e vão louvar a deus & seu padre & o rei
que criam um céu da nossa miséria.

é um poema de william blake que traduzi em parceria com o mário alves coutinho em “canções da inocência e experiência” (veja a capa aí do lado). em destaque, os dois versos que mais combinam com a minha revolta neste instante. tão brasil.

uma senhora festa-poema

tá lá no blogue do marcelo sahea: no dia 23/09 acontecerá o mais longo sarau da história, organizado por Menezes y Morais (que até contactou o pessoal do Guiness Book). é o sarau da primavera que já tem em sua programação 100 horas de poesia. das 20h do dia 19 (quarta-feira) à zero hora do dia 23 (domingo) de setembro, no clube da Imprensa, lá em brasília. lançamentos e relançamentos de livros e cds de autores residentes na capital, além de programação cultural paralela. quem estiver em brasília não pode perder.

andityas soares de moura numa vídeo-conferência sobre juan gelman

aí está o meu parceiro e comparsa numa vídeo conferência sobre um de nossos poetas favoritos. o vídeo tem 57 minutos e a conferência é realmente muito instrutiva. vale a pena conferir.

o evento fez parte da série panorama arte e cultura, que é promovida juntamente com a diretoria de arte e cultura da puc minas. o projeto biblioteca digital multimídia é uma parceria da puc minas com o instituto embratel 21 e cerca de outras dez instituições universitárias e culturais. a transmissão foi feita através do portal do conhecimento, com direção e apresentação do professor haroldo marques.

um poema de william burroughs

dia de ação de graças, 28 de novembro de 1986

agradeço pelo peru selvagem e os pombos passageiros, destinados a virar merda nas saudáveis tripas americanas.

agradeço por um continente a espoliar e envenenar.

agradeço pelos índios por garantirem uma módica dose de desafio e perigo.

agradeço pelas vastas manadas de bisões para matar e depelar e depois deixar as suas carcaças à putrefação.

agradeço pelos troféus de caça de lobos e coiotes.

agradeço pelo sonho americano, por inventar lorotas até que elas brilhem à luz do dia.

agradeço pela klu klux klan. aos policiais que matam negros e os contabilizam. às decentes beatas de igreja com suas mesquinhas, interesseiras, feias e perversas caras.

agradeço pelos adesivos de “mate uma bicha em nome de jesus cristo.

agradeço pela aids de laboratório.

agradeço pela proibição e pela guerra contra as drogas.

agradeço por um país onde a ninguém é permitido cuidar da seus próprios problemas.

agradeço por uma nação de dedos-duros.

agradeço, sim, todas as lembranças – ok, deixa eu ver o que você tem nas mãos!

você foi sempre uma dor de cabeça e uma encheção de saco.

agradeço pela última e maior traição do último e maior sonho dos sonhos humanos.

(tradução de leo gonçalves)

deixo o original (Thanksgiving Day Nov. 28, 1986) no vídeo de gus van sant

revista zunái

está no ar a versão virtual da revista zunái (www.revistazunai.com.br) que é comandada por claudio daniel e rodrigo de souza leão, além do projeto gráfico de ana peluso e um conselho editorial de peso. este número, como sempre muito bonito, tem sua iconografia baseada em reproduções do acervo do museu de cabul (afeganistão), destruído em 2002 por milicianos do talebã, e também de objetos saqueados no iraque, durante a segunda guerra do golfo. não podia calhar melhor nas vésperas do 11 de setembro.

um artigo de juan gelman

assim começa o mais recente artigo (“avaliações”) da bitácora de juan gelman. trata-se de uma questão que tem estado na ponta da minha língua e que me leva a pensar nos meus preparativos para o 11 de setembro que vem (para ler o artigo na íntegra, clique aqui):

Mais de cem especialistas norte-americanos em política internacional consideram que, desde a ocupação do Iraque, o mundo se tornou mais perigoso, a estratégia de segurança nacional descarrilou e a própria guerra carece de bússola. Assim o manifesta a maioria dos analistas mais respeitados do país no terceiro “Índice do terrorismo”, o informe semestral de uma consulta que o Centro para o Progresso Estadunidense e a revista Foreign Policy (www.americanprogress.org, 20-8-2007) realizam. A opinião – tanto de democratas como de republicanos – é de chefes militares, ex-secretários de Estados, assistentes de hierarquia da Casa Branca, conselheiros presidenciais de segurança nacional, acadêmicos prestigiosos e agentes do alto escalão dos serviços de inteligência. 80% ocuparam cargos no governo dos EUA – mais da metade no Poder Executivo – 32% nas forças armadas e 21% na chamada comunidade de inteligência. Seus julgamentos em nada coincidem com o otimismo de W. Bush.