Arquivo da categoria: Poesia & arredores

Um não-poema de Heriberto Yépez

Daniel não curte o latex
diz que com a muralha
de uma única pele
já é mais que o suficiente.

Quanto a mim, acho
que não há invenção
mais fabulosa do que a camisinha:

é o primeiro invento humano
que realmente nos protege
dos terríveis efeitos
e venenos próprios do amor.

(Tradução: Leo Gonçalves)

A Daniel le molesta el látex/dice que con la muralla/de una sola piel/ya es más que suficiente.//A mí, en cambio, me parece/que no hay invención/más fabulosa que el condón://es el primer invento humano/que realmente nos protege/de los terribles efectos/y venenos propios del amor.

Este não-poema é um capítulo do romance 41 closets

41closets

lançamento do livro “machado de assis tradutor” de jean-michel massa

Machado de Assis Tradutor, livro de Jean-Michel Massa é lançado em Belo Horizonte

O pesquisador francês Jean-Michel Massa vem a Belo Horizonte para o lançamento da tradução de seu ensaio Machado de Assis Tradutor. Ele fará uma palestra sobre a obra do autor brasileiro, em evento promovido pela Pos-Lit – Programa de Pós-Graduação em Literatura, da Faculdade de Letras da UFMG.

Pioneiro do estudo da formação de Machado de Assis e ainda hoje quem melhor conhece seu trabalho de tradutor, Jean-Michel Massa é responsável pela divulgação, em 1965, dos Dispersos de Machado de Assis, em que reuniu boa parte da produção machadiana antes não identificada e/ou confinada em periódicos de difícil acesso e do inventário dos 718 livros que ainda restavam da biblioteca do escritor.

Em Machado de Assis tradutor, J.-M. Massa divulga o resultado de sua minuciosa pesquisa. Identifica e analisa 46 traduções de nosso autor, sendo 3 delas inéditas.

Ao lado de traduções conhecidas, como o romance Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, e o poema “O corvo”, de Edgar Allan Poe, estão listadas e analisadas as demais obras traduzidas, algumas por encomenda, outras por escolha do tradutor. A maior parte é de peças teatrais e poemas de autores variados, mas em que prevalecem textos franceses.

Machado de Assis traduziu com regularidade desde o início de sua carreira até a maturidade. Acompanhar seu percurso como tradutor ajuda a compreender sua formação como poeta, crítico, contista, dramaturgo, cronista e romancista.

Fato marcante é que seu primeiro livro publicado seja uma tradução – Queda que as mulheres têm para os tolos (Typografia Paula Brito, 1861; reedição: Crisálida, 2003) – e que seus trabalhos seguintes sejam adaptações de textos franceses para o teatro, seguido de um livro de poemas, Chrysalidas (Garnier, 1864; reedição: Crisálida, 2000), em que mescla poemas próprios com traduções de A. Dumas Filho, M. de Staël, H. Heine, A. Mickiewicz, Dante Alighieri, La Fontaine, entre outros. É uma verdadeira antologia das literaturas européias.

Em seguida à publicação do ensaio, Jean-Michel Massa publicará, em outubro, o livro organizado e anotado por ele, Três peças francesas traduzidas por Machado de Assis. Trata-se de traduções (inéditas) de Machado de Assis.

Machado de Assis Tradutor de Jean-Michel Massa
Crisálida Editora, 2008.
Tradução: Oséias Silas Ferraz
128 páginas preço: R$ 24,00
Local: Faculdade de Letras da UFMG (Auditório Sonia Viegas)
Av. Antônio Carlos, 6777 – Campus da Pampulha

Data: 08 de setembro, segunda-feira, 19 horas

paulo leminski, 24 de agosto de 2008

já se tornou quase uma tradição (sem compromisso) a data de hoje no salamalandro. não dá pra esconder a importância de paulo leminski na minha vida. e vida é uma palavra-chave para a leminskidade da minha poesia (hoje, se me perguntarem se recebo influência de leminski, eu arrenego).

no dia 24 de agosto, ele completaria 64 anos de vida. mas como na carne não rolou, só nos resta homenagear a curta vida do cara que foi o grande mestre da minha geração.

e vai em bloco: neste momento está acontecendo a última sessão da semana paulo leminski, com a presença de toninho vaz (autor da biografia desse “bandido que sabia latim”) e leitura de poemas. mas pra mim, a homenagem mais comovente é a do ademir assunção, lá na espelunca.

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

p. leminski

programa petrobrás cultural (informe-se)

um acordo entre a petrobrás e o ministério da cultura abre novos rumos para a atual edição do programa petrobrás cultural. a novidade é que os interessados em enviar projetos não terão mais que aprová-los previamente na lei rouanet.

O “Acordo de Cooperação Técnica Ministério da Cultura – Petrobras” cria uma etapa semifinal no processo de análise/seleção do PPC, durante a qual o MinC analisará, sob os critérios e requisitos da lei Rouanet, os projetos finalistas do PPC, conferindo (ou não) a eles a aprovação na Lei Rouanet. Essa nova etapa será inserida após o final do trabalho das comissões de seleção e antes da decisão final pelo Conselho Petrobras Cultural, que definirá os projetos vencedores e uma lista de suplentes.

Dessa forma, todos os projetos vencedores, quando anunciados, já estarão aprovados na lei de incentivo fiscal, tendo então prazo de 30 dias improrrogáveis para a apresentação da documentação exigida pela Petrobras para a contratação, sob pena de convocação de projetos suplentes (que, conforme explicado acima, também já estarão devidamente aprovados na lei de incentivo).

quem quiser mais informações, prepare-se. na próxima quinta-feira, dia 28 de agosto, às 16h30, haverá um chat com a gerente de patrocínios da petrobrás, eliane costa, e o responsável pela seleção pública do setor de Literatura, giuseppe zani. a primeira hora irá tratar das questões relativas ao setor de criação literária: ficção e poesia.

fique atento às notícias no site da petrobrás:
http://www2.petrobras.com.br/CULTURA/ppc/index.asp

caymmi encontra o canoeiro

acordo no domingo com vontade de informação. abro alguns blogues. encontro caetano que diz: “caymmi completou sua vida luminosa”. entendo tudo. fico triste. caymmi foi na jangada e a jangada voltou só. ele tinha 94 anos e pouco mais de 80 canções compostas. 80 canções inesquecíveis que ensinaram pro brasil o que é que tem no tabuleiro da baiana. sem caymmi não tinha bossa nova, não tinha tropicália, nem o renascimento do samba nos anos setenta, nem muitas outras coisas que formam aquilo que chamamos hoje de brasil.

foi também ele que ensinou a música brasileira a gostar desavergonhadamente dos seus orixás, da sua cor, da sua miscigenação cultural e biológica. o toque do tambor e a beleza da mulher negra nas consoantes oclusivas de “atrás do dengo desta nega/todo mundo vem” cantados como se nem poesia fosse. o poeta antropólogo antônio risério (no seu livro mais recente), comentando sobre “a lenda do abaeté” lembra a rima trimestiça como um símbolo da nossa mistura racial (“batucajé” é vocábulo híbrido de banto e iorubá. “abaeté” é tupi. e “quisé” é português):

no abaeté tem uma lagoa escura
arrodeada de areia branca
ô de areia branca
ô de areia branca

de manhã cedo
se uma lavadeira
vai lavar roupa no abaeté
vai se benzendo
porque diz que ouve
ouve a zoada
do batucajé

o pescador
deixa que seu filhinho
tome jangada
faça o que quisé
mas dá pancada se o seu filhinho brinca
perto da lagoa do abaeté
do abaeté

a noite tá que é um dia
diz alguém olhando a lua
pela praia as criancinhas
brincam à luz do luar

o luar prateia tudo
coqueiral, areia e mar
a gente imagina quanta a lagoa linda é

a lua se enamorando
nas águas do abaeté
credo, cruz
te desconjuro
quem falou de abaeté
no abaeté tem uma lagoa escura

antônio cícero na oficina que deu há um ano atrás em diamantina, comentava que um poema se torna um clássico quando entra para o repertório da língua. e não é preciso ser nenhum gênio para perceber que canções como “o que é que a baiana tem?” e “você já foi à bahia?” contêm alguns dos adágios mais comuns na fala coloquial de qualquer região brasileira. cícero tem razão. afinal, “quem não tem balangandãs não vai ao bonfim”.

caymmi me lembra a minha infância. quando eu era menino, não tínhamos muita música em casa. do pouco que rolava, meu pai gostava de ouvir coisas incomuns, cantadas em línguas estrangeiras ou os antigos cantores do rádio. mas a música que eu nunca esqueço e que ficou gravada nas faixas da minha memória é “o mar”, na voz do dorival, acompanhado de um violãozinho calmo e delicado. provavelmente esta será a única canção que cantará na minha cabeça no dia da minha morte.

letra do dia

o amor
(cecília silveira)

o amor
como for
está em tudo aqui
na praça
na rua
telhado
bichinho
tijolo de construção

o amor
como for
pulou dentro de mim
ainda sinto a dor
que um dia veio me consolar

o amor bate na porta
nas coisas tortas
em qualquer lugar
o amor bate na porta
mas não abra

olha o amor
seja como for
vai desarrumando a vida
olha o amor
venha como for
vai ameaçando meus dias

(música gravada por titane no disco ana)

janaína moreno e as vozes ancestrais

uma gota cai no meio do oceano. e no meio da calmaria, a água responde em pequenas ondas que se espalham em ressonância. vem um vento e vai fortificando cada espectro da gota. e bem longe dali, um dia, uma ilha inteira é inundada. há certas coisas cujo efeito não dá pra calcular. estou falando da cantora mineira Janaína Moreno.

hoje, quem a vê se apresentando no cartola bar, uma das melhores casas de samba de belo horizonte, mal pode perceber a força daquela voz. assim como fabiana cozza, ver janaína no palco é abrir as portas para a manifestação da grande força dos ancestrais. não só porque ela os evoca em meio às zuelas e cantos de orixás que caem tão bem no seu samba. o ngunzo, o axé está é nela. é possível que nem mesmo ela tenha percebido as proporções disto. e por isso é preciso dizer.

janaína moreno não é apenas um elemento a mais na paisagem musical de minas. aos jornalistas e produtores culturais de plantão, já vou logo avisando: esta é não é uma artista qualquer. cantoratriz, ela hipnotisa a todo mundo com muita graça e alegria. com ou sem acústica favorável. e não se basta com seu vozeirão: é também uma pesquisadora de fôlego e uma operária formiguinha, que cuida com capricho de cada detalhe do que faz. conta com excelentes músicos para isto e não precisa dessas minhas palavras para ser o que é.

já falei e não me canso de dizer: Belo Horizonte é hoje uma espécie de meca da boa música na atualidade. não são poucas as jovens cantoras mineiras que sabem fazer do palco um lugar sagrado. michelle andreazzi (do grupo Capim Seco), por exemplo, elisa paraíso, leopoldina, maísa moura, mariana nunes. não são só cantoras dotadas de boa técnica, mas grandes intérpretes que fazem a poesia transbordar de dentro de cada som, de cada sílaba. atuando por sua própria conta e risco, janaína moreno tem, na minha opinião, um posto privilegiado entre elas. uma voz de guerreira regida por dandalunda.

quero voltar a falar dessas cantoras por aqui. enquanto a hora não chega, sugiro aos leitores que se divirtam com os espaços da janaína moreno pela internet:

www.janainamoreno.blogspot.com
www.myspace.com/janainamoreno

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paul verlaine

retrato de paul verlaine aos 25 anos

no ano de 1867, paul verlaine publicou “as amigas – cenas de amor sáfico”, uma suíte de sonetos lésbicos. são 6 poemas que encenam delicadamente o amor de duas mocinhas de pensionato. fecha com um soneto a safo. reza a lenda que safo teria se apaixonado no final de sua vida por um jovem garoto chamado faon e se lançado do alto do monte leucas.

a plaquete foi montada sob os auspícios do editor auguste poulet-malassis, o mesmo que havia publicado, cerca de dez anos antes, “as flores do mal” de charles baudelaire. o livreto de verlaine, assim como o de baudelaire, foi censurado e mais tarde reunido pelo autor no livro jadis et naguère.

traduzi toda a série há alguns anos e fiquei (continuo ainda) à espera de uma revista ou editora que quisesse publicá-la. enquanto não chega, deixo, a título de “amuse-gueule”, o n°2 da suíte para os aficionados.

II. as pensionistas

uma tinha quinze, a outra dezesseis;
dormiam no mesmo quarto. e no ar de
outono caía, pesada, a tarde.
olhos azuis, frágeis e a tenra tez.

tiram, para estar mais à vontade,
a fina camisa de âmbar francês.
a mais nova espreguiça, e por sua vez,
sua irmã lhe beija, e com a mão a invade.

cai de joelhos, tumultuosa e louca;
e com ar selvagem, afunda a boca
no seu ouro louro, nas cinzas frestas.

e a criança, ao mesmo tempo, avalia,
nos dedos singelos, valsas promessas,
e rosa, sorri, com inocência pia.

(paul verlaine – trad.: leo gonçalves)

l’une avait quinze ans, l’autre en avait seize;/toutes deux dormaient dans la même chambre./c’était par un soir très lourd de septembre:/frêles, des yeux bleus, deus rougeurs de fraise.//chacune a quitté, pour se mettre à l’aise,/la fine chemise au frais parfum d’ambre./la plus jeune étend les bras, et se cambre,/et as soeur, les mains sur ses seins, la baise,//puis tombe à genoux, puis devient farouche/et tumultuose et folle, et sa bouche/plonge sous l’or blonde, dans les ombres grises;/et l’enfant, pendant ce temps-là, recense/sur ses doigts mignons des valses promises,/et, rose, sourit avec innocence.