Arquivo da categoria: Poesia & arredores

lançamento: revista roda nº 6

acho que ainda dá tempo: será lançada hoje a revista roda nº 6, comandada pelo mestre-sala ricardo aleixo. no novo número, uma porção de belezuras: homenagem aos 70 anos de nascimento e 40 de poesia e provocaçãm de sebastião nunes. na homenagem, um dossiê com entrevista, poemas, comentários de caras como bruno brum, glauco mattoso, ademir assunção. além de um poema de affonso ávila com o nome de “são sebastião da bocaiúva”. para quem já conhece a poesia desse cara que já é considerado um mestre de todas as gerações que vieram depois dele. além disso, a revista roda traz poemas do angolano abreu paxe, o cubano nicolás guillén, o mineiro paulo kauim e muito mais.

e em meio a este “muito mais”: o meu ensaio “os sessenta anos da anthologie – um livro inventa o presente“. uma espécie de homenagem aos 60 anos da primeira edição da anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française [antologia da nova poesia negra e malgaxe de língua francesa] organizada em 1948 pelo poeta e (então futuro) presidente do senegal léopold sédar senghor. meu ensaio traz também traduções de alguns poemas presentes na anthologie.

o lançamento acontece hoje, dia 16 de novembro, às 18h, no estande do Lira, instalado no 9º encontro das literaturas, no chevrolet hall.

um poema de joão cabral

a sevilhana que é de córdoba

essa sevilhana de fora
tem outra dimensão por dentro.
não é sevilhana, é cordobesa,
cidade de imóvel silêncio.

bem cordobês foi “lagartijo”
foram “guerrita” e “manolete”
que toureavam como sêneca,
cordobês, tinha o pensamento.

podia ser de santa marina
ou nascer na praça do potro,
em qualquer dos bairros de córdoba,
de atmosfera funda de poço.

não sei por onde nasceu sêneca,
em que bairro, em que quarteirão,
mas vi tourear “manolete”,
sua severa resignação.

a sevilhana que é de córdoba
dos toureiros não teve a lição,
mas aprendeu em sêneca mesmo
o rigor denso da expressão.

sevilha e córdoba: andaluzia
que se expressa por fora ou é dentro,
como a sevilhana de quem falo,
cujo andaluzismo eu me invento.

(do livro sevilha andando)

 

 

maiakovski – liubliu [amo]

o adulto tem os seus assuntos.
enche os bolsos de rublos.
fazer amor?
faça, então!
pela bagatela de cem rublos.
e eu,
sem prumo nem rumo,
as mãos
no bolso
com furos,
eu passava, de olhos bem abertos.
à noite,
você sai em pano puro.
procura repouso nas esposas, nas viúvas.
mas eu,
moscou me sufocava me apertava
nos penduricalhos de seus bulevars-rios.
nos peitos,
nos relógios,
os amantes fazem tic-tac.
no leito de amor, as parceiras estão em êxtase.
eu, na praça da paixão,
eu escutava
as selvagens pulsações do coração das capitais.
bem aberto —
com o coração semi-descoberto —
eu me ofereço ao grande sol e à poça d’água.
entrem com as suas paixões!
entrem com os seus amores!
doravante não sou mais dono do meu coração.
sei  nos outros onde fica o coração.
no peito – todo mundo sabe.
comigo
a anatomia perdeu a razão.
meu corpo é todo coração-
ele bate em toda parte.
quantos forem eles
durante vinte anos nesse ser
de apenas primaveras levadas na sua erupção.
seu peso acumulado é muito para carregar.
pesadão não
para o verso
mas no que os olhos podem ver.

Traduzi este trecho do poema “liubliu” [amo] de vladímir maiakovski, assim, de improviso, a partir de uma tradução francesa que tenho, feita por Christian David. por enquanto. Um dia traduzirei direto do russo.

pode chorar que o choro é livre

festival do choro livre

começa no próximo dia 08, sábado, o festival do choro livre, em bh. a programação está transbordando: muita música boa, rodas de choro nos principais mercados, oficinas, debates e trocas de idéias. quer uma listinha de participantes? não cabe todo mundo aqui, mas dou uma deixa: maurício carrillo, paulo moura, gabriel guedes, rodrigo torino, mestre jonas, seu mozart, os grupos pedacinho do céu, sarau brasileiro, flor de abacate, corta jaca, gafieira senta a pua, dois do samba. agora se quer saber mais e melhor, olha aí o site e o blogue do projeto. e pode chorar, que o choro é livre:

www.chorolivrebh.blogspot.com

www.chorolivre.com.br

canção do amor impossível – um poema de antônio cícero

como não te perderia
se te amei perdidamente
se em teus lábios eu sorvia
néctar quando sorrias
se quando estavas presente
era eu que não me achava
e quando tu não estavas
eu também ficava ausente
se eras minha fantasia
elevada a poesia
se nasceste em meu poente
como não te perderia?

este poema de antônio cícero está no livro a cidade e os livros. rj: record, 2002

patrícia mc quade | suja de piche

suja de piche :: blogue de patrícia mc quade

patrícia mc quade é a mulher que povoa meus sonhos. isso eu nunca escondi de ninguém. aliás, boa parte dos poemas que aparecem aqui, ali, traduções de poemas, minhas idéias mirabolantes, estão dedicados a ela. professora genial, sabe ensinar do jeito que deveria ser a educação que não há no brasil. no começo deste ano, publiquei uma entrevista que fiz com ela no overmundo, onde ela fala das coisas da educação, da poesia, das crianças e dos adultos.

há algum tempo, ela começou a publicar num blogue delicado chamado suja de piche. falei: vou noticiar no meu salamalandro. mas ela, tímida, não queria. agora ela está lá, repleta de notícias de um pouco do bonito que encontra nos palcos e telas da cidade, além de poemas, crônicas, citações e outras coisas belas que ela sabe fazer. uma dica para os navegantes: visitar as postagens mais antigas, que estão repletas de poesia. por via das dúvidas, publico aqui um dos poemas dela que mais gosto:

pena de passarim

para john willis, meu pai

todo dia bem cedinho
seu joão se levanta
e cuida de passarim

é gorjeio aqui
trinado ali
piada acolá
uma beleza de se escutar

mas a piada melhor
é a de seu joão
de alma de passarim
e pena de voar

bom é acordar juntinho
com seu joão
sempre bem cedinho
de pena leve
e alma de passarim

canta pra mim passarim
canta pra mim

patrícia mc quade
www.sujadepiche.blogspot.com