Arquivo da categoria: Poesia & arredores

Anotações para WTC BABEL S. A.

Eu sou aquele que transforma-se em morte
O destruidor de mundos
A rosa de Oppenheimer no Oceano Pacífico
O azul de metileno que brota do inesperado
como a salvação da terra

Os múltiplos braços de Krishna
manejando a roda da fortuna
Eu sou o oceano pacífico
O inimigo número um

(Manhattan Project is the name of a prophetic poem
by F. D. Roosevelt 1942
the shadow of General Yamamoto)

Eu sou o calo no seu sapato
Aquele que transforma-se em Ato
para destruir seus sonhos de burguês
Eu sou a própria morte lambendo os beiços em nome do deus
numa imensa mobilização de símbolos
Águias Lobos Uivos e Coyotes

Eu sou a sua estrada aberta
WTC Babel Sonho Americano
Eu sou o seu beco sem saída
A sua estrela guia o seu sono insano

Linda como um sol poente clara como o Ramadam
ó filhas do Sol Nascente
Do centésimo décimo andar eu sigo sempre atenta
Que os Demônios sempre descem do norte
Eu sou o destruidor de mundos
Aquele que transforma-se em morte

Máscara Negra – Léopold Sédar Senghor

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Máscara negra

A Pablo Picasso

Ela dorme e repousa sobre o candor da areia
Kumba Tam dorme. Uma palma verde vela a febre dos cabelos, a fronte curva cobre
As pálpebras fechadas, corte duplo e têmperas seladas.
Esse estreito crescente, este lábio mais negro e até pesado
– onde o sorriso da mulher cúmplice?
As patenas das bochechas, o desenho do queixo cantam o acordo mudo.
Rosto de máscara fechado ao efêmero, sem olhos sem matéria
Cabeça de bronze perfeita e sua pátina de tempo
Que não suja ruge nem rubor nem rugas, nem marcas de lágrimas nem de beijos
Oh rosto tal como Deus te criou antes da própria memória das eras
Rosto do amanhecer do mundo não te abra como um colo terno para emocionar a minha carne.
Eu te adoro, oh Beleza, com meu olho monocórdio!

Masque nègre
A Pablo Picasso

Elle dort et repose sur la candeur du sable./Koumba Tam dort. Une palme verte voile la fièvre des cheveux, cuivre le front courbe/ Les paupières closes, coupe double et sources scellés./Ce fin croissant, cette lèvre plus noire et lourde à peine/ – où le sourire de la femme complice?/Les patènes des joues, le dessin du menton chantent l’accord muet./Visage de masque fermé à l’éphémère, sans yeux sans matière/ Tête de bronze parfaite et as patine de temps/Que ne souillent fards ni rougeur ni rides, ni traces de larmes ni de baisers/O visage tel que Dieu t’a créé avant la mémoire même des ages/ Visage de l’aube du monde, ne t’ouvre pás comme um col tendre pour émouvoir ma chair./ Je t’adore, ô Beauté, de mon oeil monocorde!

*

Postei este poema, atendendo ao pedido do Mateus, leitor deste blogue, segue o poema “Máscara negra” de Léopold Sédar Senghor, em tradução minha.

Dedicado a Pablo Picasso este poema testemunha uma epifania do poeta diante do pensamento do pintor. Segundo o próprio Senghor, a obra de Picasso, sua paixão pelo primitivismo, o fez repensar sua condição de africano na época em que vivia em solo europeu, num período em que a ideia da Negritude apenas fervilhava nas cabeças dos jovens poetas que moravam em Paris.

Consta que Picasso alimentava uma certa paixão pela tradição pictórica da África e, ao entender que uma máscara nas culturas animistas não é uma mera escultura, mas uma arma, uma ferramenta, afirmou: “Se damos formas aos espíritos, nos tornamos independentes”. Com isso, também pôde compreender melhor o sentido de sua própria pintura.

não macule a minha faca

photomaton & vox

revisando:

programa para quinta-feira:
ver a performance photomaton & vox
do coletivo “não macule a minha faca”,
composto por letícia féres, julius e frederico pessoa.

a apresentação será amanhã, dia 27 de março às 19h
no oi futuro
avenida afonso pena, 4001 – térreo
bairro mangabeiras
informações no (31) 3229 3131

ou se não quiser ligar, dê uma olhada nos seguintes endereços:

www.naomaculeminhafaca.org

www.atrasdosolhos.wordpress.com

campo coletivo no mariantonia (em sp)

“campo coletivo” é uma exposição que acontece no mariantonia a partir de 27/3 de 2008, quinta-feira, às 20h e que reúne: poro (bh/mg), cine falcatrua (vitória/es), laranjas (pa/rs), gia (ssa/ba) e espaço coringa (sp/sp), sob curadoria de fernanda albuquerque e gabriela motta.

além da produção dos grupos, a exposição terá uma midiateca que agrupa materiais gráficos (panfletos, cartazes, registros e publicações produzidos pelos participantes), projeções de vídeo, ativações e biblioteca.

a midiateca conta ainda com uma máquina de xerox e um computador para que seu conteúdo possa ser copiado pelos visitantes (leve seu dvd).

para mais informações, leia a notícia completa no blogue do marcelo terça-nada!

milton césar pontes: viver de poesia

o poeta milton césar pontesde um tempo pra cá, sempre que vou ao edifício maletta, seja de noite ou de dia, encontro com milton césar pontes. ele está sempre vendendo seus livros, falando obscenamente sobre todo tipo de assunto. coisas do mundo, de preferência.

a figura dele me lembra paulo leão. não que eles escrevam coisas parecidas. leão era um poeta materialista, um beatnik do terceiro mundo. e o milton é um sujeito abstrato, sonhador, um sedutor. não que eles se pareçam fisicamente. quando conheci paulo leão, ele já estava bem gasto e andava muitas vezes como indigente pelas ruas da cidade. meio rosto amassado pelo ônibus que o pegou bêbado atravessando a rua. e o milton, embora um bêbado assumido, é um jovem bonitão, com planos românticos de escolher a própria morte numa noite em que será odiado pelos companheiros de copo.

leão estava mais para um françois villon, um poeta indigente e ladino que lutava para viver do que escrevia. e o milton é um sonhador romântico, um byron bebum, um shelley chulé, um ladino performer. e também luta para viver do que escreve, como fazia leão, vendendo seus poemas desavergonhadamente nas mesas dos botecos da cidade. e os dois levam a poesia a sério. vendem o que arrancam de dentro com muita dor.

nunca vi o milton perguntando pra ninguém se gosta de poesia. muito menos o leão. já vi muito poeta nas imediações do maletta me perguntando isso. e o que eles vendiam não tinha poesia em lugar nenhum. nem no modo de apresentá-la, muito menos no impresso. pode ter certeza: se me perguntarem se gosto de poesia por aí, direi que não. mas o milton faz poesia com o corpo, com o despudor, com sua voz de radialista mal empregada em falar poemas. ele almeja, como todo poeta que se preze, poder escrever “poeta” na hora de preencher nos dados pessoais o lugar destinado à profissão.

eu me comovo com a causa. sinceramente e sem ironias, me comovo de verdade com a causa. talvez a glória de paulo leão tenha sido conseguir o título de poeta ao menos no atestado de óbito (os tabeliões queriam colocar “indigente”). milton consegue ir mais longe. é um empreendedor. faz de seus livros um projeto de vida. publica, arruma saídas, meios, soluções práticas e financeiras.

outro dia me veio com uma proposta: “você compra o seu lote através da planta, agora também pode comprar livros. na planta!” e me estendeu todo o projeto de um livro que estava prestes a sair. tinha já a capa, alguns poemas do miolo, um comentário publicado pelo jornalista e poeta alécio cunha no hoje em dia. a pessoa investia irrisórios R$20. e em breve, o livro indo para a gráfica, o leitor receberia em suas mãos um livro prontinho, novinho em folha.

fiquei emocionado com a idéia. achei de uma simplicidade e de uma sabedoria! fiquei me lembrando dos inúmeros poetas que chegam até a mim perguntando como se faz para se publicar um livro de poemas, como arrumar grana, se dá grana. admiro muito isso. talvez eu o imite algum dia, à minha maneira.

não quero discutir aqui a qualidade dos seus versos. pode reclamar quem quiser: pra mim, isso tudo que contei faz do milton um grande poeta. e eu o admiro por isso.

ronald polito na biblioteca girapemba

folhas de girapemba - ana maria ramiro

ronald polito está lá nas folhas de girapemba, da poeta, minha poeta camarada ana maria ramiro. testemunho de uma experiência poética multilíngüe, você encontra lá, também, poemas de joan brossa, adolfo montejo navas e renato leduc, além dos surpreendentes “Inferno: estação central” e “Luta”, de polito.

a essas alturas, a biblioteca girapemba já se torna imprescindível. a proposta é simples: ana entrevista sempre um poeta ao gosto dela, pergunta um pouco sobre sua formação, seus poetas favoritos e organiza tudo no blogue. por lá já passaram, além do ronald: lau siqueira, thiago ponce de moraes, linaldo guedes, marcelo sahea, claudio daniel e até este salamalandro que vos fala.

para conferir tudo isto, clique na etiqueta: biblioteca

revista de autofagia n.2

REVISTA DE AUTOFAGIA n.2 - novembro - 2007

tenho uma paixão especial pelas revistas de literatura/poesia. gosto dos dossiers, das entrevistas, dos poemas que aparecem ali. é um evento à parte na vida de quem publica nela, pois ela tem um destino que foge ao controle do autor, ao contrário do que aconteceria se fosse um livro. tem momentos em que acho mais digno de comemoração uma publicação em revista do que um livro.

a revista de autofagia n.2, é pra mim um exemplo disto. abri-la e encontrar todo um dossier, incluindo entrevista, comentários e poemas de renato negrão foi para mim uma surpresa maravilhosa. considero o negrão um dos caras mais criativos com quem já convivi e lamento muito que ele não seja ainda suficientemente lido/conhecido/comentado pelo brasil/mundo afora, não tanto por ele, mas mais pelos leitores que saem perdendo de verdade.

mas na revista não tem só isso não. lá, você encontra também: bernardo amorim, espaço cubo, sandro eduardo saraiva, elisa andrade buzzo e otras cositas mais.

há muito tempo que eu esperava ver o número publicado e quando eu perguntava para o makely ou para o bruno, seus editores, sentia que eles passavam por algo bem parecido com o que passei nos tempos de estilingue: uma dificuldade para além da vontade de quem faz. realmente, manter viva uma revista de poesia no brasil não é brincadeira. por isso eu concordo plenamente com o makely, que escreveu no editorial: “a segunda edição de uma revista de poesia no país já é motivo de comemoração”. tem que querer muito para coisa sair. quando sai, fogos e todo tipo de artifício ainda é pouco.

por isso, comemoremos com muitos vivas e laroiês! e que venha o número 3.